Wandi Doratiotto

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Reflexões: Entrevista concedida em outubro de 2002 para uma tese de pós-graduação

 

 

Vamos lá: A chamada música independente abrange uma gama de situações uma vez que não está inserida dentro de um contexto com seus códigos, etc.  Como você falou, essa atitude independente é mais uma necessidade em função da procissão
de horrores do entretenimento de massas de um tempo pra cá.  Artistas com idéias divergentes, fora do que se instituiu como vendável, talvez por meia dúzia de engravatados numa sala refrigerada, precisam se expressar.  Daí a coisa começa.  Felizmente não para!  Em lugares que essa rede de produtos altamente vendáveis se esgarça, o independente entra.  Em tudo é assim, não se tratade ficar chorando nos cantinhos e sim compreender o lance.  Só pra exemplificar em que grau a coisa chegou, uma artista de ponta de grande gravadora como Maria Bethânia, hoje está num pequeno selo chamado Biscoito Fino lá do Rio de
Janeiro.  Praticamente uma atitude independente!  Está havendo uma mudança espantosa nesses últimos anos no esquema das grandes gravadoras. 
Um exemplo é a demissão em massa de diretores, produtores, etc. Outro fator forte, que dá um assunto à parte é a pirataria...  Em momento algum pretendo esgotar assunto tão vasto, vou aqui pensando e escrevendo...

...a  vanguarda paulista foi a busca de uma saída ao lugar comum que assolava a música popular brasileira.  Sei que soa pretensioso e até arrogante, mas era.  Uma busca é uma busca.  Conseguir é outra coisa.
Conseguimos muito!  Sobretudo com a estética do Arrigo Barnabé e do Itamar Assumpção (o cara que mais gosto dessa movimentação)..  Um crítico disse que a vanguarda paulistana foi o retrato em branco e preto da aquarela do Brasil. 
Quem me vê divagando sobre vanguarda pode acreditar que não gosto da tradição.  Ao contrário!  Acredito modestamente como Mário de Andrade, que um caminho para o artista  brasileiro, entre outros, diga-se, é o conhecimento profundo das nossas manifestações para melhor darmos o salto para o novo. 
Adoro Paulinho da Viola, Cartola, Nelson Cavaquinho, Moreira da Silva, Jackson do Pandeiro, Clementina de Jesus, Orlando Silva e tantos outros...  Penso que o mesmo se estende às outras manifestações artísticas.  Acredito que
só um gênio absoluto poderia partir do ponto zero - se é que é possível.   Tenho que voltar um pouco e dizer que tudo passa pela
estética, pela estrutura e pelo mercado.
Quanto ao Premê, tudo foi surgindo meio sem querer...  Nós não tínhamos um propósito premeditado.  Era vontade de oxigenar um pouco o ambiente, com humor e crítica aos clichês da tradição e do Brasil.  Já era muito, né?
Fazíamos apresentações relâmpagos nos lugares mais inusitados: Dentro de ônibus, bares, restaurantes da USP, viadutos, e chamávamos nosso público para o Teatro Lira Paulistana, um grande agregador daquela tendência. Tudo era uma gostosura!
Esses fatos aconteceram no final dos anos setenta, começo dos oitenta.
Uma  grande diferença dos anos oitenta para os atuais, é a facilidade que a Internet proporcionou na confecção e propagação de idéias.  Como um todo, a tecnologia dos computadores facilitando muito as gravações, criou
nichos autônomos de criação.  Existem inúmeros selos que privilegiam determinados estilos: instrumental, mais jazzístico, mais MPB, e vai.... 
Quando comecei a apresentar o Bem Brasil, no anfiteatro romano do campus da cidade universitária, em l991, nós dávamos ênfase para o choro – quase sempre instrumental, e um cantor, cantora bem ligados a MPB mais tradicional. 
Depois fomos abrindo para as novas tendências pois era o caminho natural e necessário. À medida que abrimos a tampa, fomos criando espaço para os artistas alternativos, o que foi bem legal.  Hoje podemos trazer artistas absolutamente consagrados, como Lulu Santos, Gal Costa, Daniela Mercury, etc., como iniciantes de todas as cenas brasileiras.  Nossa ligação com as
gravadoras é muito salutar.  A maioria dos artistas contratados por elas quer fazer o Bem Brasil, e tudo gira na base de sugestões, ajustes de artistas que combinem esteticamente, ou seja, toda a logística que possibilita um grande show.

Voltando ao Premeditando o Breque, posso dizer que não houve mudança significativa do começo até agora, salvo aquela ditada pela experiência e pela tecnologia. 
A primeira parceria foi com o Estúdio Sppala, do Dionísio Moreno (compositor) e do Marcos Vinicius (compositor e expert  do direito autoral).  Lá gravamos um disco em oito canais, inimaginável com o recursode hoje.  Tudo rolou bem e
considero nosso melhor trabalho.   Os demaisforam obedecendo a critérios sazonais  de produção e criação.  Nossa parceria com a Continental (juntamente com o Lira Paulistana) foi bacana.
Conseguimos um sucesso importante com a música “São  Paulo, São Paulo”.  Um dos nossos álbuns teve a capa concebida pelo genial Guto Lacaz: “O Melhor dos Iguais”.  Sei que acabamos viajando por todo o Brasil mostrando nosso som.  O melhor projeto que pintou na nossa vida, e na de muitos outros artistas, foi o “Projeto Pixinguinha”.  Sempre se apresentavam um consagrado e um iniciante. O Premê, por exemplo, tocou com Ademilde Fonseca, a rainha do chorinho, com Sergio Ricardo, e outros nomes
importantes da música popular do Brasil. Para terem idéia da importância e excelência desse projeto, eu vi uma das maiores apresentações da minha vida com Jackson do Pandeiro e Alceu Valença. Uma maravilha!


Wandi Doratiotto